sábado, 24 de dezembro de 2016

cabelos negros

noite ainda e avistaram as luzes da cidade cintilantes no horizonte. num traçado poderia chegar ao destino numa brevidade de menos de uma hora, mas o cenário acidental da geografia litorânea implicava em contornos ampliando as distâncias. uma hora equivaleria a algumas e o sono preso nos olhos agradecia. despertos, se aconchegaram nos braços e foi quando ele percebeu toda negritude de seus cabelos, o volume e o frescor do aroma. à frente, o motorista tratava de questões da existência, sempre que podia, comentava a respeito da humanidade e do futuro que os aguardava, não projetava visões otimistas, traçava ruínas num mundo agonizante, "Não quero estar vivo".

mudou de posição, sentou-se encostando as costas entre a porta e o banco e a aconchegou no corpo, as mãos percorreram suas costas e a envolveu num longo abraço. falou alguma coisa, um carinho, uma palavra de conforto, era o que tinha. a estrada sinuosa e abandonada formava solavancos inesperados, tornava a viagem num desconforto, ainda assim preferia o caminho ao destino, dessas incertezas que nos aguarda.

seus olhos percorreram o interior do automóvel se detendo nos detalhes do forro do teto desgastados, havia um corte retilíneo só possível com uma lâmina que balançava retalhos e fiapos ao ritmo dos buracos do caminho. uma música, que lhe acompanhava desde uns dias, ressurgiu na memória e se deixou embalar pela melodia, gostava de uns acordes inexistentes na canção original mas que seu cérebro deu um jeito de criar. aos poucos, a música mudou e apenas as cordas de seu violão imaginário lhe embalavam. precisava de um descanso e essa viagem desconfortável era o mais próximo que conseguiria.

observou que ela dormia, serena, cansada, e seus cabelos negros, e lhe soprou o quanto gostava deles, daquela cor.