sábado, 24 de dezembro de 2016

cabelos negros

noite ainda e avistaram as luzes da cidade cintilantes no horizonte. num traçado poderia chegar ao destino numa brevidade de menos de uma hora, mas o cenário acidental da geografia litorânea implicava em contornos ampliando as distâncias. uma hora equivaleria a algumas e o sono preso nos olhos agradecia. despertos, se aconchegaram nos braços e foi quando ele percebeu toda negritude de seus cabelos, o volume e o frescor do aroma. à frente, o motorista tratava de questões da existência, sempre que podia, comentava a respeito da humanidade e do futuro que os aguardava, não projetava visões otimistas, traçava ruínas num mundo agonizante, "Não quero estar vivo".

mudou de posição, sentou-se encostando as costas entre a porta e o banco e a aconchegou no corpo, as mãos percorreram suas costas e a envolveu num longo abraço. falou alguma coisa, um carinho, uma palavra de conforto, era o que tinha. a estrada sinuosa e abandonada formava solavancos inesperados, tornava a viagem num desconforto, ainda assim preferia o caminho ao destino, dessas incertezas que nos aguarda.

seus olhos percorreram o interior do automóvel se detendo nos detalhes do forro do teto desgastados, havia um corte retilíneo só possível com uma lâmina que balançava retalhos e fiapos ao ritmo dos buracos do caminho. uma música, que lhe acompanhava desde uns dias, ressurgiu na memória e se deixou embalar pela melodia, gostava de uns acordes inexistentes na canção original mas que seu cérebro deu um jeito de criar. aos poucos, a música mudou e apenas as cordas de seu violão imaginário lhe embalavam. precisava de um descanso e essa viagem desconfortável era o mais próximo que conseguiria.

observou que ela dormia, serena, cansada, e seus cabelos negros, e lhe soprou o quanto gostava deles, daquela cor.

domingo, 26 de junho de 2016

horizontes

meus caminhos não são retos, nem tortos; apenas caminhos, às vezes curvilíneos que avistam distantes horizontes. meus dias são estáticos como num amanhecer que repousa sereno. há o mar e há as nuvens e pegadas na areia de se perder. tenho uma oração gravada no pulso, um sonho agarrado aos dedos e notas de pianos como memória. hoje, reverberei palavras que o vento dissolveu. sou a espuma do mar. sou a curva na nuvem. sou as horas que adormecem no ângulo escaleno dos ponteiros do relógio. tudo sou, nada sou.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

tudo certo, nada certo


a equipe se posiciona no corredor, a retaguarda ocupada pelo apoio tático. Entre eles, Haucke, o delegado que comanda a operação. Diante do 117, Elke e Duarte repassam, por meio de sinais, a função de cada um: ele moverá o trinco da porta enquanto ela bate se identificando e imediatamente Franco, entre os dois, arrombará a porta. Elke sabe que precisa manter os braços esticados na altura do queixo, a arma apontada na direção do sujeito que será detido, melhor, que será morto na operação, um traficante que atua como intermediário a partir do cartel de Cali usando os portos brasileiros como forma de enviar pasta base para processamento de drogas sintéticas para Amsterdam e receptando essas drogas vindas da Europa. O ponto principal dessa operação é de um risco calculado e o único propósito é retirar esse intermediário, um agente da Polícia Federal que se infiltrara numa das mais ativas quadrilha de tráfico internacional, numa simulação de enfrentamento que resultaria na “morte” desse traficante
A equipe de apoio, na retaguarda, e um hotel de quinta categoria nas imediações do porto serviriam de testemunha e cenário para assegurar a legitimidade da operação. Depois entrava a perícia assegurando a encenação a partir de dados, detalhes e a documentação necessária. Por fim, matérias jornalísticas para dar publicidade e repercussão ao fato.
Haucke, que participara, desde o início, do planejamento da operação, estava entre as duas equipes, a Especial que ele comandava, e a de Apoio Tático que se incorporava ao grupo na última hora, próprio da estratégia corriqueira.
Elke é sua filha, está há cinco anos na polícia, formada em Direito e prepara sua carreira para assumir um posto de delegada nos próximos anos. À frente da rendição desse intermediário é uma forma segura de lhe dar pontos no currículo, mesmo que se trate de uma operação de fachada.
Antes de darem início à operação e com o movimento nos corredores, a porta do 118 se abre e ouve-se uma voz entre o grave e meloso expressar um “Ai, meu Deus” e imediatamente fechar a porta obrigando as equipes a recuarem. Haucke, entre as duas, sinaliza que mantenham as posições.
Breve silêncio.
Um sinal de Elke e Duarte move o trinco dando início à operação. Na sequência, Elke cumpriria o protocolo: anunciaria a presença policial, exigiria a rendição e, sem tempo para reagir, entrariam à força sabendo, de antemão, que não haveria respostas. Para dar credibilidade à morte do informante, fazendo parecer aos membros da quadrilha que um de seus integrantes teria “caído”, os policiais seriam recebidos a tiros. Elke usa um, o agente atiraria em seu abdômen – protegido por um colete a prova de balas –, daí a insistência de Duarte que ela entrasse mantendo o braço esticado numa inclinação de 30 graus, assim lhe ofereceria condições de atirar sem riscos e legitimaria a reação. Ela própria alvejaria o criminoso alegando legítima defesa entre outras prerrogativas judiciais. Em seguida, a Perícia faria a parte que lhe cabe e entregaria o “corpo” à PF. Mas mal Duarte toca o trinco, a porta se abre, Elke nem teve tempo de terminar a palavra “polícia” e um cenário surpreendente se revelou diante dos policiais: ao contrário de um homem em pé, ou mesmo sentado, à espera de cumprir com o roteiro combinado, encontram um homem deitado, imóvel, o rosto tombado na direção oposta à porta, calçando apenas um dos pés de sapato, o outro seria encontrado no quarto, próximo à cama, o paletó aberto, a mão esquerda ao lado do corpo, a palma para cima, os dedos encolhidos.
O impasse se instaura à porta do 117. Haucke, no corredor entre as equipes, assim que percebeu o olhar de seus agentes, sacou a pistola que carrega da parte de trás da cintura e perguntou em tom baixo sobre o que estava acontecendo. O Tático que se agrupava logo atrás fez menção de avançar, mas Nestor, que os comandava, manteve-os nas posições.
Elke e Duarte entram, apontam a arma para o sujeito imóvel na cama, o procedimento agora é real, Franco posta-se na porta fazendo o mesmo e Haucke se aproxima também com a arma apontada para dentro quarto. Elke escorre pela parede enquanto se posiciona Duarte aos pés da cama. O Tático faz menção de avançar mas é contido, uma vez mais, ao sinal de Nestor. Duarte se inclina e percebe que o rosto do homem, hematomas no olho e ferido nos lábios, cabelos quase raspados, está sobre uma larga mancha de sangue absorvido pelo lençol. Duarte toca com sua arma toca o pé descalço do homem, que não reage. E repete ainda duas vezes. É nesse intervalo que Haucke entra no quarto, a pistola na mão pronto para disparar se for preciso e sua expressão vai mudando ao se aproximar do homem na cama. Nesse tempo, Duarte não tem mais dúvidas, “O homem está morto”. Eles se olham, Haucke guarda sua pistola lentamente, olha para o homem sobre a cama e pede para que chamem Balena, da perícia, Franco, da porta, grita para que o Tático providencie a presença do perito-chefe conforme a exigência do delegado.
A situação instaura um desconforto na equipe, os semblantes entre surpresa e incerteza revelam desacertos que se seguem como a presença de Mendes, um repórter da área criminal que fora “convocado” para cobrir a prisão de um perigoso narcotraficante. Haucke praticamente o expulsa do local, mas ele vira o suficiente para saber além do que estava combinado.

domingo, 3 de abril de 2016

tempos inglórios, II

esse gosto, esse cheiro, pútridos, só podem ser da água. tom escuro escorre em largas manchas. dos volumes pastosos na superfície, sabe-se lá de quê, rejeitos, dejetos, qual nome seja, assinalam o rio morto. me banhei, dali bebi, nada mais, à terra árida, o pó que assenta, remoinhos de primavera, a preguiça que adensa no corpo. o pássaro pia, é prenúncio, avisa que alma nenhuma há de se chegar e largo o peso do corpo, dobro em joelhos e invoco nas rezas meu desespero. tenho um nome, ninguém me chama. na noite que se acalma, abancado diante da porta, avisto os luzeiros do céu, as alumiadas do tempo, ensejo umas graças e digo seja Nossa Senhora quem me atenda. daí durmo sonhando com anjos que embalam e sopram nas narinas os gozos da fome. é cedo e outra vez tomo rumo no mato, atento às arrulhas e vozerios, dali de uma batida, uma cotia desavisadaa, é antes ela que o milharal ainda a brotar e vencer desatinos. miro deitado dedicado na pontaria, adianto no rastejo uns lances de aproximação assegurado que o alcance seja feito de precisão e antes um pouco do tiro certeiro me aparece o filhote, os filhotes, implorando a bênção da mãe lhe agarrando as tetas esfomeados que são, assim, desde nascença. a fome, digo, que me arrebata três dias é vencida nesse desgraça que me acalora o ventre, e deixo que sigam suas sinas rastejantes, antes eles no mato na luta e desamparo que eu, feito homem, cheio de fé perdida e esperança sem tempo.

terça-feira, 29 de março de 2016

tempos inglórios, I

deleitam-se em banquetes, regozijam diante das damas, brindam suas medalhas irrelevantes exibidas no peito, dos lábios lambuzados de licores juras de amor sopradas. assim é a corte. não há quem se deite faminto senão em fastio, embriagado de vinho requintado em lençóis de seda. nas ruas, a fome devassa, a criança suja chora, o homem em trapos recolhe restos.

em campos distantes, notícias de batalha tratam o silêncio das cartas que desemboca em noites longas, fere em lâmina aguda o peito em dor, a oração aflita diante da santa, a mãe, a esposa, a amante.

dois poetas em desatino disputam trovas de versos em súbito, dançam no sereno à madrugada ébria em valsas noturnas. o gato ondula o reflexo em poças que refletem o mundo, janelas vergadas e paredes sujas, um poste cego e duas estrelas cintilam em nuvens vesgas.

lúgubres, seguem em versos os poetas, invocam das profundezas seus anjos interiores enfrentando com a poesia bêbada todas as feridas do mundo. descalço, oferece ao cão vadio afago, duas palavras de conforto, um nome de apego.

no porto, logo ali, a bandeira da pátria trêmula, pano apenas, cores em geometria, sangue aos que dela fazem suas glórias nesses tempos desatinados.

segunda-feira, 28 de março de 2016

por suposto, Emma

de se perguntar, ao se ter a notícia àquela hora da tarde, o que levaria Emma tal atitude? especula-se que lhe atormentava a própria beleza em declínio, a idade que lhe impunha os primeiros sinais de decadência e não suportar se olhar n espelho e perceber que anos lhe cobravam o declínio natural. mas há, quem possa, afirmar que não se tratava de tal obsessão senão os dias insuportáveis compartilhados com Rudolf ao longos de quase quinze anos. e havia, por suspeita, um destino já traçado e foi como se lhe dissessem não. porque não se tratava apenas de Rudolf senão de Gerrard e tudo o que havia no entorno. Vera lhes disse não saltando do nono, um voo que quebrou a monotonia outonal daquela tarde e encerrava a insanidade de sua gente.

quadra zero ponto seis

epicentro.

em Nostradamus, na sexta Centúria, a Sexta, condenava descrentes de suas palavras.

em Varnas, a rádio alternativa, epicentro da narrativa (última temporada), um ponto de resistência e trincheira, de onde tudo se percebe e denuncia (apenas como registro, nada muda o curso das coisas).

em breve, no ar!

programas alternativos de poesia, literatura e música, notícias comentadas e documentários radiofônicos.

domingo, 27 de março de 2016

Otelo, Desdemona

Emilio, dos Tessitore, foi o último dos Varnas da Casa veneziana. não teve herdeiros. sujeito caprichoso, mecenas e benfeitor de artistas de talento ímpar. amante da ópera de Puccini e das obras de Sheakespeare, em particular, Otelo. diz-se, fizera do porão que antes armazenava peças persas e árabes, um teatro privado, um luxo, incorporando Desdemona e revezando Otelos a seu gosto.

seus convivas eram abençoados por sua generosidade, nem sempre por esse gosto que ora provocava atração, ora repulsa, nunca apático, como o cuore de maiale servido mal passado servido ao vinho tinto e ervas, iguaria servida à mesa em talheres de prata, a mais fina porcelana.

em fins dos Trinta, a Europa em convulsão e Hitler ensaiando seu império, Emilio assumira sua indumentária para estranhamento e horror de seus pares e desafetos e o adotara renunciando ao seu nome de batismo. sequer conhecia Emilio, era Desdemona para quem quer fosse, relés ou autoridade, pátrio ou bárbaro.

de Maurice Collet encomendou outro fim para a peça de Sheakespeare, Desdemona pazza in lacrime, desperta em sua tumba e vaga chorosa, atormentada, pelas vias da cidade, procura por Otelo enclausurado, condenado pela loucura passa o dia invocando seu nome, Desdemona, Desdemona.

adepto do fascismo, desprezava os ideias do Reich e desdenhava Hitler, mas dedicava a Mussolini longos versos e odes alçando o Dute ao panteão dos heróis pátrios e não lhe cansara de enviar os mais requintados tecidos levando sua assinatura, o mais refinado produzido na Europa da ocasião.

em meados dos Cincoenta, com o declínio da Casa Varnas de Veneza, Emilio tomado por Desdemona miserável, perambulava por Veneza confessando pecados e revelando segredos, mendigava migalhas em troca de versos de Ovídio Naso e desaparecer nas águas adriáticas que banharam as areias límpidas de seu Palzzo d'Audèjas.

sábado, 26 de março de 2016

de Avicena e amores tortos

a covardia é de tom lilás, diz-me.
é. digo, lilás.
nem importo. conheço dessas.
ora isso, aquilo. caprichos. exigências.
Avicena deslumbrou caminhos do conforto, desconforto, dissimulações, a poltrona nas noites de inverno, sombras de primavera.
alinhou instâncias, escreveu em códigos, insinuou ilusões. promessas.
mentiu (sem condescendência, mentiu).
agora isso.

manhã de domingo e a missa nem encerrada e me acena em seu preto-luto intenções. antes, quando havia no pretérito o propósito de futuros, renunciara, por caprichos.
- filha, lhe disseram. - toma tento, toma. tomou.
fui, avariado no desassossego à guerra, uns campos de solidão e vento nas ventas.

é sol de outro dia e agora o aceno.
rio de passagem.

quanto custa um desatino?

beijos os pés dos humildes, meu nome é Ninguém, feliz assim, nisso, nem nada.

o sabor ácido do vinho me reluz.
se quiser, ainda uma taça. não espere mais.

 sossegou. o infortúnio lhe confortava.

dos códigos da paz, I

ao fim da tarde, ouvia-se tiros isolados, espaçados. sabe-se lá quem, por quê. às ruas em ruínas exalam dos cadávres o cheiro pútrido da morte. longe, desforra, convulsões. gritos, chamados, até se silenciarem e o que parecia descanso, desespero. depois dos homens ratos, daí cães famintos, o frio da noite e a escuridão. a fome e a sede. daí a dor, gemidos lancinante, alucinante. pernas inertes, os braços se ocupavam, em vão, largar-se dos escombros e calor. gritou o nome de seus mortos, sabendo que já estavam, ainda assim gritou cada um deles. cansou. dormiu. despertou trêmulo em febre, ofegante. rezou que lhe arrancassem da vida, que libertassem da dor que lhe subia as entranhas, repousava no peito agulhadas terríveis e o sangue seco nos lábios lhe amargavam à madrugada. fez-se perguntar, quando do primeiro tiro, antes não respondesse, antes sua vaidade não lhe convocasse à desforra, antes antes, agora isso, o fim eminente.

sexta-feira, 25 de março de 2016

abril, tão triste abril

o que há de se esperar para esse abril que se anuncia?
folhas no chão, o vento que castiga esquinas, nada que se avente além. afronta ares que aqui se respira, dessa gente descabida em intentos senão a esfolarem míseros pedintes e a esnobar-me com hálitos de fortuna. desfilam vestes de soberba, cospem-me, despem-me, sujeitam-me ao achincalho e descaso. serei quem desde ali, do mês que a tudo se finda, tudo começa?
serei um homem de guerra, adianto, ainda que fôlego não me coloque em campo de batalha, nem pernas, nem braços, apenas o intento de uma alma que se estremece diante do dias, das incertezas que abril me invoca.
tão triste é abril, mês invocado.