domingo, 26 de junho de 2016

horizontes

meus caminhos não são retos, nem tortos; apenas caminhos, às vezes curvilíneos que avistam distantes horizontes. meus dias são estáticos como num amanhecer que repousa sereno. há o mar e há as nuvens e pegadas na areia de se perder. tenho uma oração gravada no pulso, um sonho agarrado aos dedos e notas de pianos como memória. hoje, reverberei palavras que o vento dissolveu. sou a espuma do mar. sou a curva na nuvem. sou as horas que adormecem no ângulo escaleno dos ponteiros do relógio. tudo sou, nada sou.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

tudo certo, nada certo


a equipe se posiciona no corredor, a retaguarda ocupada pelo apoio tático. Entre eles, Haucke, o delegado que comanda a operação. Diante do 117, Elke e Duarte repassam, por meio de sinais, a função de cada um: ele moverá o trinco da porta enquanto ela bate se identificando e imediatamente Franco, entre os dois, arrombará a porta. Elke sabe que precisa manter os braços esticados na altura do queixo, a arma apontada na direção do sujeito que será detido, melhor, que será morto na operação, um traficante que atua como intermediário a partir do cartel de Cali usando os portos brasileiros como forma de enviar pasta base para processamento de drogas sintéticas para Amsterdam e receptando essas drogas vindas da Europa. O ponto principal dessa operação é de um risco calculado e o único propósito é retirar esse intermediário, um agente da Polícia Federal que se infiltrara numa das mais ativas quadrilha de tráfico internacional, numa simulação de enfrentamento que resultaria na “morte” desse traficante
A equipe de apoio, na retaguarda, e um hotel de quinta categoria nas imediações do porto serviriam de testemunha e cenário para assegurar a legitimidade da operação. Depois entrava a perícia assegurando a encenação a partir de dados, detalhes e a documentação necessária. Por fim, matérias jornalísticas para dar publicidade e repercussão ao fato.
Haucke, que participara, desde o início, do planejamento da operação, estava entre as duas equipes, a Especial que ele comandava, e a de Apoio Tático que se incorporava ao grupo na última hora, próprio da estratégia corriqueira.
Elke é sua filha, está há cinco anos na polícia, formada em Direito e prepara sua carreira para assumir um posto de delegada nos próximos anos. À frente da rendição desse intermediário é uma forma segura de lhe dar pontos no currículo, mesmo que se trate de uma operação de fachada.
Antes de darem início à operação e com o movimento nos corredores, a porta do 118 se abre e ouve-se uma voz entre o grave e meloso expressar um “Ai, meu Deus” e imediatamente fechar a porta obrigando as equipes a recuarem. Haucke, entre as duas, sinaliza que mantenham as posições.
Breve silêncio.
Um sinal de Elke e Duarte move o trinco dando início à operação. Na sequência, Elke cumpriria o protocolo: anunciaria a presença policial, exigiria a rendição e, sem tempo para reagir, entrariam à força sabendo, de antemão, que não haveria respostas. Para dar credibilidade à morte do informante, fazendo parecer aos membros da quadrilha que um de seus integrantes teria “caído”, os policiais seriam recebidos a tiros. Elke usa um, o agente atiraria em seu abdômen – protegido por um colete a prova de balas –, daí a insistência de Duarte que ela entrasse mantendo o braço esticado numa inclinação de 30 graus, assim lhe ofereceria condições de atirar sem riscos e legitimaria a reação. Ela própria alvejaria o criminoso alegando legítima defesa entre outras prerrogativas judiciais. Em seguida, a Perícia faria a parte que lhe cabe e entregaria o “corpo” à PF. Mas mal Duarte toca o trinco, a porta se abre, Elke nem teve tempo de terminar a palavra “polícia” e um cenário surpreendente se revelou diante dos policiais: ao contrário de um homem em pé, ou mesmo sentado, à espera de cumprir com o roteiro combinado, encontram um homem deitado, imóvel, o rosto tombado na direção oposta à porta, calçando apenas um dos pés de sapato, o outro seria encontrado no quarto, próximo à cama, o paletó aberto, a mão esquerda ao lado do corpo, a palma para cima, os dedos encolhidos.
O impasse se instaura à porta do 117. Haucke, no corredor entre as equipes, assim que percebeu o olhar de seus agentes, sacou a pistola que carrega da parte de trás da cintura e perguntou em tom baixo sobre o que estava acontecendo. O Tático que se agrupava logo atrás fez menção de avançar, mas Nestor, que os comandava, manteve-os nas posições.
Elke e Duarte entram, apontam a arma para o sujeito imóvel na cama, o procedimento agora é real, Franco posta-se na porta fazendo o mesmo e Haucke se aproxima também com a arma apontada para dentro quarto. Elke escorre pela parede enquanto se posiciona Duarte aos pés da cama. O Tático faz menção de avançar mas é contido, uma vez mais, ao sinal de Nestor. Duarte se inclina e percebe que o rosto do homem, hematomas no olho e ferido nos lábios, cabelos quase raspados, está sobre uma larga mancha de sangue absorvido pelo lençol. Duarte toca com sua arma toca o pé descalço do homem, que não reage. E repete ainda duas vezes. É nesse intervalo que Haucke entra no quarto, a pistola na mão pronto para disparar se for preciso e sua expressão vai mudando ao se aproximar do homem na cama. Nesse tempo, Duarte não tem mais dúvidas, “O homem está morto”. Eles se olham, Haucke guarda sua pistola lentamente, olha para o homem sobre a cama e pede para que chamem Balena, da perícia, Franco, da porta, grita para que o Tático providencie a presença do perito-chefe conforme a exigência do delegado.
A situação instaura um desconforto na equipe, os semblantes entre surpresa e incerteza revelam desacertos que se seguem como a presença de Mendes, um repórter da área criminal que fora “convocado” para cobrir a prisão de um perigoso narcotraficante. Haucke praticamente o expulsa do local, mas ele vira o suficiente para saber além do que estava combinado.