esse gosto, esse cheiro, pútridos, só podem ser da água. tom escuro escorre em largas manchas. dos volumes pastosos na superfície, sabe-se lá de quê, rejeitos, dejetos, qual nome seja, assinalam o rio morto. me banhei, dali bebi, nada mais, à terra árida, o pó que assenta, remoinhos de primavera, a preguiça que adensa no corpo. o pássaro pia, é prenúncio, avisa que alma nenhuma há de se chegar e largo o peso do corpo, dobro em joelhos e invoco nas rezas meu desespero. tenho um nome, ninguém me chama. na noite que se acalma, abancado diante da porta, avisto os luzeiros do céu, as alumiadas do tempo, ensejo umas graças e digo seja Nossa Senhora quem me atenda. daí durmo sonhando com anjos que embalam e sopram nas narinas os gozos da fome. é cedo e outra vez tomo rumo no mato, atento às arrulhas e vozerios, dali de uma batida, uma cotia desavisadaa, é antes ela que o milharal ainda a brotar e vencer desatinos. miro deitado dedicado na pontaria, adianto no rastejo uns lances de aproximação assegurado que o alcance seja feito de precisão e antes um pouco do tiro certeiro me aparece o filhote, os filhotes, implorando a bênção da mãe lhe agarrando as tetas esfomeados que são, assim, desde nascença. a fome, digo, que me arrebata três dias é vencida nesse desgraça que me acalora o ventre, e deixo que sigam suas sinas rastejantes, antes eles no mato na luta e desamparo que eu, feito homem, cheio de fé perdida e esperança sem tempo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário