sexta-feira, 25 de setembro de 2015

eu que te chamo mundo

era um tempo das coisas cinzas. o céu e as nuvens de passagens, as chaminés, os paletós dos homens da estação, o macacão dos operários, o cabelo dos velhos na praça, o lenço da senhora na padaria, a bola que atravessa a rua, a bicicleta estacionada e a calçada antiga esquartejada no tempo, as muradas de pedra e a parede da casa, o olhar da mulher no caminho, o riso do pipoqueiro, o choro do bebê, o gato no telhado, a notícia no rádio, o gol de sábado, a predica do padre, o rosário da beata, as meias no varal, a lona no circo, o café na xícara, o sono do barbeiro, os cascos do cavalo, os letreiros na fábrica, a capa do livro, os dedos da criança, a partitura na chuva, o olhar do pai, a fome dos dias, a certeza do soldado, a cadeira do avô, o canto do louco, o abraço da estranha, a corda no poço, a espera da mãe, a música na vitrola, a palavra do juiz, a nudez da vizinha, as promessas de paz, uma carta de amor. nada mais era cinza.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

equinócio sul


é primavera [sempre foi]. que me perdoem os polares, mas o meio do mundo é um caminho mais sereno de se trilhar. há pedras, declives, terrenos áridos e distâncias, hostilidades corriqueiras e eventuais dissabores, ainda assim nada se compara a imensidão gelada daquelas eiras, noites longas ou dias sem fim que me desamparam.

ontem, à vaga lua que cresce, praia vazia, nove mulheres nuas dançavam no entorno da fogueira, soltavam seus cantos gozosos anunciando efemérides, sacrificaram uma existência e devotaram a Vênus que desliza Escorpião, às entranhas maculadas florescem e aos olhos da virgem se despem das máscaras que os dias impõem.

é primavera e os polares que me perdoem...