sábado, 10 de outubro de 2015

ali, lá, acolá, ...

onde mora o futuro? que lugar é esse que se alcança em breve, mas agora dista um tempo ínfimo? o futuro é ali, mas é também lá no fim de tudo. a distância entre o ali, quase-nada, e o extremo dos extremos é um incógnita constante. pode não ser nada, mas pode levar uma vida. remete à ideia do singular e do plural, um sempre singular, do dois ad infinitum, plural. assim o tempo medido, identifico matematicamente o passado, sei onde e quando está, suposto que agora, esse exato momento, o presente. nunca o futuro.

domingo, 4 de outubro de 2015

nenhum caminho

procurou pelo mestre nos caminhos mais estranhos que o homem construiu, as vielas sujas dos abandonos e cantos imundos que se sujeitam as desistências. perguntou a respeito dos sentidos e expressou opiniões inconclusas e incertezas. a fome era uma via que o elevava às glórias contra os abusos que se permitira, abstinha-se dos gozos e fizera do silêncio sua procissão interna refazendo cada um dos dias e as gordas alegrias que dividira nas noites que se alongam e desabam mergulhadas no luxo da embriagues.

- onde um mestre? e lhe indicavam aquis e alis por toda parte e lhe sugeriam nomes e lhe relatavam milagres enquanto seguia na busca incansável. ouviu palavras, premissas, sentenças, e todos eram mestres que tangenciavam sua busca até que um dia encontrou uma criança, sentada na calçada a sombra do cinamomo.

- meus pais morreram, ela disse, queimados na casa (era um barraco) e agora procuro por outros pais que me queiram do jeito que sou, assim (e se mostrou inteira num riso que lhe falta uns dentes e as unhas sujas).

partiram dali cada um a sua busca sem saber que se encontraram.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

eu que te chamo mundo

era um tempo das coisas cinzas. o céu e as nuvens de passagens, as chaminés, os paletós dos homens da estação, o macacão dos operários, o cabelo dos velhos na praça, o lenço da senhora na padaria, a bola que atravessa a rua, a bicicleta estacionada e a calçada antiga esquartejada no tempo, as muradas de pedra e a parede da casa, o olhar da mulher no caminho, o riso do pipoqueiro, o choro do bebê, o gato no telhado, a notícia no rádio, o gol de sábado, a predica do padre, o rosário da beata, as meias no varal, a lona no circo, o café na xícara, o sono do barbeiro, os cascos do cavalo, os letreiros na fábrica, a capa do livro, os dedos da criança, a partitura na chuva, o olhar do pai, a fome dos dias, a certeza do soldado, a cadeira do avô, o canto do louco, o abraço da estranha, a corda no poço, a espera da mãe, a música na vitrola, a palavra do juiz, a nudez da vizinha, as promessas de paz, uma carta de amor. nada mais era cinza.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

equinócio sul


é primavera [sempre foi]. que me perdoem os polares, mas o meio do mundo é um caminho mais sereno de se trilhar. há pedras, declives, terrenos áridos e distâncias, hostilidades corriqueiras e eventuais dissabores, ainda assim nada se compara a imensidão gelada daquelas eiras, noites longas ou dias sem fim que me desamparam.

ontem, à vaga lua que cresce, praia vazia, nove mulheres nuas dançavam no entorno da fogueira, soltavam seus cantos gozosos anunciando efemérides, sacrificaram uma existência e devotaram a Vênus que desliza Escorpião, às entranhas maculadas florescem e aos olhos da virgem se despem das máscaras que os dias impõem.

é primavera e os polares que me perdoem...