terça-feira, 17 de novembro de 2015

relato, primeira passagem

ainda pela manhã, pouco antes das onze, vi que o automóvel estacionara nas imediações da Estados Unidos, como me haviam antecipado. desceram três homens, um deles já de idade bem avançada, vestia-se com sobriedade e se protegia com chapéu de feltro e cachecol apesar de não fazer tanto frio como era de se esperar em fins de outono.

à primeira impressão, tratava-se de alguém importante, mas não o conhecia, nem o vira em qualquer das situações que tive oportunidade de ser apresentado às autoridades governistas ou mesmo àquelas que se opõem ao atual mandatário na Rosada.

no café, de onde me postei para acompanhar os acontecidos e aguardar para que se confirme o que está previsto, consegui apenas dois ângulos razoáveis para o registro fotográfico. ao desembarcar, seguiram adiante, em oposição de onde me encontrava, tomaram a Chacabuco e desapareceram à esquerda, na esquina onde há uma loja de ferragens e Vicente os acompanhava.

relata que entraram numa das residências, um edifício de seis andares, localizado à direita, na metade geométrica da rua. conversamos rapidamente, evitamos nos manter na loja e na rua onde se instalaram e mudamos a tática, passamos a vigiar o automóvel enquanto Olivo, que me acompanhara no café se posicionara de forma que pudesse observar os movimentos na entrada do prédio. até as treze e trinta, nada ocorrera que pudesse suspeitar, apenas algumas senhoras com cães, crianças e alguns prováveis moradores. anotara cada entrada e saída, hora e minuto, detalhes, ocorrências.

Vicente fizera o registro da placa do automóvel e Gualtiero foi designado a descobrir procedência e proprietário. tais respostas só se deram dois dias depois, o desconhecido que desembarcara se tratava de um empresário de navegação, A. Hudtner. Sua presença fazia todo sentido .

Pelas quinze, um dos homens que o acompanhara saíra com o automóvel. Olivo o seguiu mantendo distância razoável, depois de visitar duas repartições do governo, ambas nas proximidades de Mayo, embarcou um homem obeso, carregava uma pasta de couro, preta. sentara num dos bancos traseiros, falava e fumava. dali, na Corrientes, retornaram a Telmo e estacionou o automóvel exatamente em frente ao edifício. não pareciam preocupados, nem desconfiavam que eram observados.

o gordo ao qual chegara se tratava de Obilles, um advogado influente na Corte Suprema, próximo ao governo de Perón, acesso livre a Farreli, diz-se que usado para os fins mais escusos, defensor dos  mãos sujas que agem para fins questionáveis, supostamente úteis, ou necessários. Obilles era esse sujeito, enriquecia por saber demais.

Chegou. Entrou. Dez minutos, saiu. Um táxi providencial e não o vimos mais. não naquele dia.

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