domingo, 27 de março de 2016

Otelo, Desdemona

Emilio, dos Tessitore, foi o último dos Varnas da Casa veneziana. não teve herdeiros. sujeito caprichoso, mecenas e benfeitor de artistas de talento ímpar. amante da ópera de Puccini e das obras de Sheakespeare, em particular, Otelo. diz-se, fizera do porão que antes armazenava peças persas e árabes, um teatro privado, um luxo, incorporando Desdemona e revezando Otelos a seu gosto.

seus convivas eram abençoados por sua generosidade, nem sempre por esse gosto que ora provocava atração, ora repulsa, nunca apático, como o cuore de maiale servido mal passado servido ao vinho tinto e ervas, iguaria servida à mesa em talheres de prata, a mais fina porcelana.

em fins dos Trinta, a Europa em convulsão e Hitler ensaiando seu império, Emilio assumira sua indumentária para estranhamento e horror de seus pares e desafetos e o adotara renunciando ao seu nome de batismo. sequer conhecia Emilio, era Desdemona para quem quer fosse, relés ou autoridade, pátrio ou bárbaro.

de Maurice Collet encomendou outro fim para a peça de Sheakespeare, Desdemona pazza in lacrime, desperta em sua tumba e vaga chorosa, atormentada, pelas vias da cidade, procura por Otelo enclausurado, condenado pela loucura passa o dia invocando seu nome, Desdemona, Desdemona.

adepto do fascismo, desprezava os ideias do Reich e desdenhava Hitler, mas dedicava a Mussolini longos versos e odes alçando o Dute ao panteão dos heróis pátrios e não lhe cansara de enviar os mais requintados tecidos levando sua assinatura, o mais refinado produzido na Europa da ocasião.

em meados dos Cincoenta, com o declínio da Casa Varnas de Veneza, Emilio tomado por Desdemona miserável, perambulava por Veneza confessando pecados e revelando segredos, mendigava migalhas em troca de versos de Ovídio Naso e desaparecer nas águas adriáticas que banharam as areias límpidas de seu Palzzo d'Audèjas.

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