segunda-feira, 28 de março de 2016

por suposto, Emma

de se perguntar, ao se ter a notícia àquela hora da tarde, o que levaria Emma tal atitude? especula-se que lhe atormentava a própria beleza em declínio, a idade que lhe impunha os primeiros sinais de decadência e não suportar se olhar n espelho e perceber que anos lhe cobravam o declínio natural. mas há, quem possa, afirmar que não se tratava de tal obsessão senão os dias insuportáveis compartilhados com Rudolf ao longos de quase quinze anos. e havia, por suspeita, um destino já traçado e foi como se lhe dissessem não. porque não se tratava apenas de Rudolf senão de Gerrard e tudo o que havia no entorno. Vera lhes disse não saltando do nono, um voo que quebrou a monotonia outonal daquela tarde e encerrava a insanidade de sua gente.

quadra zero ponto seis

epicentro.

em Nostradamus, na sexta Centúria, a Sexta, condenava descrentes de suas palavras.

em Varnas, a rádio alternativa, epicentro da narrativa (última temporada), um ponto de resistência e trincheira, de onde tudo se percebe e denuncia (apenas como registro, nada muda o curso das coisas).

em breve, no ar!

programas alternativos de poesia, literatura e música, notícias comentadas e documentários radiofônicos.

domingo, 27 de março de 2016

Otelo, Desdemona

Emilio, dos Tessitore, foi o último dos Varnas da Casa veneziana. não teve herdeiros. sujeito caprichoso, mecenas e benfeitor de artistas de talento ímpar. amante da ópera de Puccini e das obras de Sheakespeare, em particular, Otelo. diz-se, fizera do porão que antes armazenava peças persas e árabes, um teatro privado, um luxo, incorporando Desdemona e revezando Otelos a seu gosto.

seus convivas eram abençoados por sua generosidade, nem sempre por esse gosto que ora provocava atração, ora repulsa, nunca apático, como o cuore de maiale servido mal passado servido ao vinho tinto e ervas, iguaria servida à mesa em talheres de prata, a mais fina porcelana.

em fins dos Trinta, a Europa em convulsão e Hitler ensaiando seu império, Emilio assumira sua indumentária para estranhamento e horror de seus pares e desafetos e o adotara renunciando ao seu nome de batismo. sequer conhecia Emilio, era Desdemona para quem quer fosse, relés ou autoridade, pátrio ou bárbaro.

de Maurice Collet encomendou outro fim para a peça de Sheakespeare, Desdemona pazza in lacrime, desperta em sua tumba e vaga chorosa, atormentada, pelas vias da cidade, procura por Otelo enclausurado, condenado pela loucura passa o dia invocando seu nome, Desdemona, Desdemona.

adepto do fascismo, desprezava os ideias do Reich e desdenhava Hitler, mas dedicava a Mussolini longos versos e odes alçando o Dute ao panteão dos heróis pátrios e não lhe cansara de enviar os mais requintados tecidos levando sua assinatura, o mais refinado produzido na Europa da ocasião.

em meados dos Cincoenta, com o declínio da Casa Varnas de Veneza, Emilio tomado por Desdemona miserável, perambulava por Veneza confessando pecados e revelando segredos, mendigava migalhas em troca de versos de Ovídio Naso e desaparecer nas águas adriáticas que banharam as areias límpidas de seu Palzzo d'Audèjas.

sábado, 26 de março de 2016

de Avicena e amores tortos

a covardia é de tom lilás, diz-me.
é. digo, lilás.
nem importo. conheço dessas.
ora isso, aquilo. caprichos. exigências.
Avicena deslumbrou caminhos do conforto, desconforto, dissimulações, a poltrona nas noites de inverno, sombras de primavera.
alinhou instâncias, escreveu em códigos, insinuou ilusões. promessas.
mentiu (sem condescendência, mentiu).
agora isso.

manhã de domingo e a missa nem encerrada e me acena em seu preto-luto intenções. antes, quando havia no pretérito o propósito de futuros, renunciara, por caprichos.
- filha, lhe disseram. - toma tento, toma. tomou.
fui, avariado no desassossego à guerra, uns campos de solidão e vento nas ventas.

é sol de outro dia e agora o aceno.
rio de passagem.

quanto custa um desatino?

beijos os pés dos humildes, meu nome é Ninguém, feliz assim, nisso, nem nada.

o sabor ácido do vinho me reluz.
se quiser, ainda uma taça. não espere mais.

 sossegou. o infortúnio lhe confortava.

dos códigos da paz, I

ao fim da tarde, ouvia-se tiros isolados, espaçados. sabe-se lá quem, por quê. às ruas em ruínas exalam dos cadávres o cheiro pútrido da morte. longe, desforra, convulsões. gritos, chamados, até se silenciarem e o que parecia descanso, desespero. depois dos homens ratos, daí cães famintos, o frio da noite e a escuridão. a fome e a sede. daí a dor, gemidos lancinante, alucinante. pernas inertes, os braços se ocupavam, em vão, largar-se dos escombros e calor. gritou o nome de seus mortos, sabendo que já estavam, ainda assim gritou cada um deles. cansou. dormiu. despertou trêmulo em febre, ofegante. rezou que lhe arrancassem da vida, que libertassem da dor que lhe subia as entranhas, repousava no peito agulhadas terríveis e o sangue seco nos lábios lhe amargavam à madrugada. fez-se perguntar, quando do primeiro tiro, antes não respondesse, antes sua vaidade não lhe convocasse à desforra, antes antes, agora isso, o fim eminente.

sexta-feira, 25 de março de 2016

abril, tão triste abril

o que há de se esperar para esse abril que se anuncia?
folhas no chão, o vento que castiga esquinas, nada que se avente além. afronta ares que aqui se respira, dessa gente descabida em intentos senão a esfolarem míseros pedintes e a esnobar-me com hálitos de fortuna. desfilam vestes de soberba, cospem-me, despem-me, sujeitam-me ao achincalho e descaso. serei quem desde ali, do mês que a tudo se finda, tudo começa?
serei um homem de guerra, adianto, ainda que fôlego não me coloque em campo de batalha, nem pernas, nem braços, apenas o intento de uma alma que se estremece diante do dias, das incertezas que abril me invoca.
tão triste é abril, mês invocado. 

terça-feira, 24 de novembro de 2015

carril

ninguém sabia das horas. há dias confinados, aguardavam o sinal de Olivo, como combinado. os homens de Muñoz circulavam em viaturas nas imediações da Chacabuco pela madrugada de ontem, o dispositivo alertara que os pontos estavam vigiados e, era certo, alguém lhes havia traído.