esse gosto, esse cheiro, pútridos, só podem ser da água. tom escuro escorre em largas manchas. dos volumes pastosos na superfície, sabe-se lá de quê, rejeitos, dejetos, qual nome seja, assinalam o rio morto. me banhei, dali bebi, nada mais, à terra árida, o pó que assenta, remoinhos de primavera, a preguiça que adensa no corpo. o pássaro pia, é prenúncio, avisa que alma nenhuma há de se chegar e largo o peso do corpo, dobro em joelhos e invoco nas rezas meu desespero. tenho um nome, ninguém me chama. na noite que se acalma, abancado diante da porta, avisto os luzeiros do céu, as alumiadas do tempo, ensejo umas graças e digo seja Nossa Senhora quem me atenda. daí durmo sonhando com anjos que embalam e sopram nas narinas os gozos da fome. é cedo e outra vez tomo rumo no mato, atento às arrulhas e vozerios, dali de uma batida, uma cotia desavisadaa, é antes ela que o milharal ainda a brotar e vencer desatinos. miro deitado dedicado na pontaria, adianto no rastejo uns lances de aproximação assegurado que o alcance seja feito de precisão e antes um pouco do tiro certeiro me aparece o filhote, os filhotes, implorando a bênção da mãe lhe agarrando as tetas esfomeados que são, assim, desde nascença. a fome, digo, que me arrebata três dias é vencida nesse desgraça que me acalora o ventre, e deixo que sigam suas sinas rastejantes, antes eles no mato na luta e desamparo que eu, feito homem, cheio de fé perdida e esperança sem tempo.
domingo, 3 de abril de 2016
terça-feira, 29 de março de 2016
tempos inglórios, I
deleitam-se em banquetes, regozijam diante das damas, brindam suas medalhas irrelevantes exibidas no peito, dos lábios lambuzados de licores juras de amor sopradas. assim é a corte. não há quem se deite faminto senão em fastio, embriagado de vinho requintado em lençóis de seda. nas ruas, a fome devassa, a criança suja chora, o homem em trapos recolhe restos.
em campos distantes, notícias de batalha tratam o silêncio das cartas que desemboca em noites longas, fere em lâmina aguda o peito em dor, a oração aflita diante da santa, a mãe, a esposa, a amante.
dois poetas em desatino disputam trovas de versos em súbito, dançam no sereno à madrugada ébria em valsas noturnas. o gato ondula o reflexo em poças que refletem o mundo, janelas vergadas e paredes sujas, um poste cego e duas estrelas cintilam em nuvens vesgas.
lúgubres, seguem em versos os poetas, invocam das profundezas seus anjos interiores enfrentando com a poesia bêbada todas as feridas do mundo. descalço, oferece ao cão vadio afago, duas palavras de conforto, um nome de apego.
no porto, logo ali, a bandeira da pátria trêmula, pano apenas, cores em geometria, sangue aos que dela fazem suas glórias nesses tempos desatinados.
em campos distantes, notícias de batalha tratam o silêncio das cartas que desemboca em noites longas, fere em lâmina aguda o peito em dor, a oração aflita diante da santa, a mãe, a esposa, a amante.
dois poetas em desatino disputam trovas de versos em súbito, dançam no sereno à madrugada ébria em valsas noturnas. o gato ondula o reflexo em poças que refletem o mundo, janelas vergadas e paredes sujas, um poste cego e duas estrelas cintilam em nuvens vesgas.
lúgubres, seguem em versos os poetas, invocam das profundezas seus anjos interiores enfrentando com a poesia bêbada todas as feridas do mundo. descalço, oferece ao cão vadio afago, duas palavras de conforto, um nome de apego.
no porto, logo ali, a bandeira da pátria trêmula, pano apenas, cores em geometria, sangue aos que dela fazem suas glórias nesses tempos desatinados.
segunda-feira, 28 de março de 2016
por suposto, Emma
de se perguntar, ao se ter a notícia àquela hora da tarde, o que levaria Emma tal atitude? especula-se que lhe atormentava a própria beleza em declínio, a idade que lhe impunha os primeiros sinais de decadência e não suportar se olhar n espelho e perceber que anos lhe cobravam o declínio natural. mas há, quem possa, afirmar que não se tratava de tal obsessão senão os dias insuportáveis compartilhados com Rudolf ao longos de quase quinze anos. e havia, por suspeita, um destino já traçado e foi como se lhe dissessem não. porque não se tratava apenas de Rudolf senão de Gerrard e tudo o que havia no entorno. Vera lhes disse não saltando do nono, um voo que quebrou a monotonia outonal daquela tarde e encerrava a insanidade de sua gente.
quadra zero ponto seis
epicentro.
em Nostradamus, na sexta Centúria, a Sexta, condenava descrentes de suas palavras.
em Varnas, a rádio alternativa, epicentro da narrativa (última temporada), um ponto de resistência e trincheira, de onde tudo se percebe e denuncia (apenas como registro, nada muda o curso das coisas).
em breve, no ar!
programas alternativos de poesia, literatura e música, notícias comentadas e documentários radiofônicos.
em Nostradamus, na sexta Centúria, a Sexta, condenava descrentes de suas palavras.
em Varnas, a rádio alternativa, epicentro da narrativa (última temporada), um ponto de resistência e trincheira, de onde tudo se percebe e denuncia (apenas como registro, nada muda o curso das coisas).
em breve, no ar!
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domingo, 27 de março de 2016
Otelo, Desdemona
Emilio, dos Tessitore, foi o último dos Varnas da Casa veneziana. não teve herdeiros. sujeito caprichoso, mecenas e benfeitor de artistas de talento ímpar. amante da ópera de Puccini e das obras de Sheakespeare, em particular, Otelo. diz-se, fizera do porão que antes armazenava peças persas e árabes, um teatro privado, um luxo, incorporando Desdemona e revezando Otelos a seu gosto.
seus convivas eram abençoados por sua generosidade, nem sempre por esse gosto que ora provocava atração, ora repulsa, nunca apático, como o cuore de maiale servido mal passado servido ao vinho tinto e ervas, iguaria servida à mesa em talheres de prata, a mais fina porcelana.
em fins dos Trinta, a Europa em convulsão e Hitler ensaiando seu império, Emilio assumira sua indumentária para estranhamento e horror de seus pares e desafetos e o adotara renunciando ao seu nome de batismo. sequer conhecia Emilio, era Desdemona para quem quer fosse, relés ou autoridade, pátrio ou bárbaro.
de Maurice Collet encomendou outro fim para a peça de Sheakespeare, Desdemona pazza in lacrime, desperta em sua tumba e vaga chorosa, atormentada, pelas vias da cidade, procura por Otelo enclausurado, condenado pela loucura passa o dia invocando seu nome, Desdemona, Desdemona.
adepto do fascismo, desprezava os ideias do Reich e desdenhava Hitler, mas dedicava a Mussolini longos versos e odes alçando o Dute ao panteão dos heróis pátrios e não lhe cansara de enviar os mais requintados tecidos levando sua assinatura, o mais refinado produzido na Europa da ocasião.
em meados dos Cincoenta, com o declínio da Casa Varnas de Veneza, Emilio tomado por Desdemona miserável, perambulava por Veneza confessando pecados e revelando segredos, mendigava migalhas em troca de versos de Ovídio Naso e desaparecer nas águas adriáticas que banharam as areias límpidas de seu Palzzo d'Audèjas.
seus convivas eram abençoados por sua generosidade, nem sempre por esse gosto que ora provocava atração, ora repulsa, nunca apático, como o cuore de maiale servido mal passado servido ao vinho tinto e ervas, iguaria servida à mesa em talheres de prata, a mais fina porcelana.
em fins dos Trinta, a Europa em convulsão e Hitler ensaiando seu império, Emilio assumira sua indumentária para estranhamento e horror de seus pares e desafetos e o adotara renunciando ao seu nome de batismo. sequer conhecia Emilio, era Desdemona para quem quer fosse, relés ou autoridade, pátrio ou bárbaro.
de Maurice Collet encomendou outro fim para a peça de Sheakespeare, Desdemona pazza in lacrime, desperta em sua tumba e vaga chorosa, atormentada, pelas vias da cidade, procura por Otelo enclausurado, condenado pela loucura passa o dia invocando seu nome, Desdemona, Desdemona.
adepto do fascismo, desprezava os ideias do Reich e desdenhava Hitler, mas dedicava a Mussolini longos versos e odes alçando o Dute ao panteão dos heróis pátrios e não lhe cansara de enviar os mais requintados tecidos levando sua assinatura, o mais refinado produzido na Europa da ocasião.
em meados dos Cincoenta, com o declínio da Casa Varnas de Veneza, Emilio tomado por Desdemona miserável, perambulava por Veneza confessando pecados e revelando segredos, mendigava migalhas em troca de versos de Ovídio Naso e desaparecer nas águas adriáticas que banharam as areias límpidas de seu Palzzo d'Audèjas.
sábado, 26 de março de 2016
de Avicena e amores tortos
a covardia é de tom lilás, diz-me.
é. digo, lilás.
nem importo. conheço dessas.
ora isso, aquilo. caprichos. exigências.
Avicena deslumbrou caminhos do conforto, desconforto, dissimulações, a poltrona nas noites de inverno, sombras de primavera.
alinhou instâncias, escreveu em códigos, insinuou ilusões. promessas.
mentiu (sem condescendência, mentiu).
agora isso.
manhã de domingo e a missa nem encerrada e me acena em seu preto-luto intenções. antes, quando havia no pretérito o propósito de futuros, renunciara, por caprichos.
- filha, lhe disseram. - toma tento, toma. tomou.
fui, avariado no desassossego à guerra, uns campos de solidão e vento nas ventas.
é sol de outro dia e agora o aceno.
rio de passagem.
quanto custa um desatino?
beijos os pés dos humildes, meu nome é Ninguém, feliz assim, nisso, nem nada.
o sabor ácido do vinho me reluz.
se quiser, ainda uma taça. não espere mais.
sossegou. o infortúnio lhe confortava.
é. digo, lilás.
nem importo. conheço dessas.
ora isso, aquilo. caprichos. exigências.
Avicena deslumbrou caminhos do conforto, desconforto, dissimulações, a poltrona nas noites de inverno, sombras de primavera.
alinhou instâncias, escreveu em códigos, insinuou ilusões. promessas.
mentiu (sem condescendência, mentiu).
agora isso.
manhã de domingo e a missa nem encerrada e me acena em seu preto-luto intenções. antes, quando havia no pretérito o propósito de futuros, renunciara, por caprichos.
- filha, lhe disseram. - toma tento, toma. tomou.
fui, avariado no desassossego à guerra, uns campos de solidão e vento nas ventas.
é sol de outro dia e agora o aceno.
rio de passagem.
quanto custa um desatino?
beijos os pés dos humildes, meu nome é Ninguém, feliz assim, nisso, nem nada.
o sabor ácido do vinho me reluz.
se quiser, ainda uma taça. não espere mais.
sossegou. o infortúnio lhe confortava.
dos códigos da paz, I
ao fim da tarde, ouvia-se tiros isolados, espaçados. sabe-se lá quem, por quê. às ruas em ruínas exalam dos cadávres o cheiro pútrido da morte. longe, desforra, convulsões. gritos, chamados, até se silenciarem e o que parecia descanso, desespero. depois dos homens ratos, daí cães famintos, o frio da noite e a escuridão. a fome e a sede. daí a dor, gemidos lancinante, alucinante. pernas inertes, os braços se ocupavam, em vão, largar-se dos escombros e calor. gritou o nome de seus mortos, sabendo que já estavam, ainda assim gritou cada um deles. cansou. dormiu. despertou trêmulo em febre, ofegante. rezou que lhe arrancassem da vida, que libertassem da dor que lhe subia as entranhas, repousava no peito agulhadas terríveis e o sangue seco nos lábios lhe amargavam à madrugada. fez-se perguntar, quando do primeiro tiro, antes não respondesse, antes sua vaidade não lhe convocasse à desforra, antes antes, agora isso, o fim eminente.
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