a equipe se posiciona no corredor, a retaguarda ocupada pelo
apoio tático. Entre eles, Haucke, o delegado que comanda a operação. Diante do
117, Elke e Duarte repassam, por meio de sinais, a função de cada um: ele
moverá o trinco da porta enquanto ela bate se identificando e imediatamente
Franco, entre os dois, arrombará a porta. Elke sabe que precisa manter os
braços esticados na altura do queixo, a arma apontada na direção do sujeito que
será detido, melhor, que será morto na operação, um traficante que atua como
intermediário a partir do cartel de Cali usando os portos brasileiros como
forma de enviar pasta base para processamento de drogas sintéticas para
Amsterdam e receptando essas drogas vindas da Europa. O ponto principal dessa
operação é de um risco calculado e o único propósito é retirar esse
intermediário, um agente da Polícia Federal que se infiltrara numa das mais
ativas quadrilha de tráfico internacional, numa simulação de enfrentamento que
resultaria na “morte” desse traficante
A equipe de apoio, na retaguarda, e um hotel de quinta categoria
nas imediações do porto serviriam de testemunha e cenário para assegurar a
legitimidade da operação. Depois entrava a perícia assegurando a encenação a
partir de dados, detalhes e a documentação necessária. Por fim, matérias
jornalísticas para dar publicidade e repercussão ao fato.
Haucke, que participara, desde o início, do planejamento da
operação, estava entre as duas equipes, a Especial que ele comandava, e a de
Apoio Tático que se incorporava ao grupo na última hora, próprio da estratégia
corriqueira.
Elke é sua filha, está há cinco anos na polícia, formada em
Direito e prepara sua carreira para assumir um posto de delegada nos próximos
anos. À frente da rendição desse intermediário é uma forma segura de lhe dar
pontos no currículo, mesmo que se trate de uma operação de fachada.
Antes de darem início à operação e com o movimento nos
corredores, a porta do 118 se abre e ouve-se uma voz entre o grave e meloso
expressar um “Ai, meu Deus” e imediatamente fechar a porta obrigando as equipes
a recuarem. Haucke, entre as duas, sinaliza que mantenham as posições.
Breve silêncio.
Um sinal de Elke e Duarte move o trinco dando início à
operação. Na sequência, Elke cumpriria o protocolo: anunciaria a presença policial,
exigiria a rendição e, sem tempo para reagir, entrariam à força sabendo, de
antemão, que não haveria respostas. Para dar credibilidade à morte do
informante, fazendo parecer aos membros da quadrilha que um de seus integrantes
teria “caído”, os policiais seriam recebidos a tiros. Elke usa um, o agente
atiraria em seu abdômen – protegido por um colete a prova de balas –, daí a
insistência de Duarte que ela entrasse mantendo o braço esticado numa
inclinação de 30 graus, assim lhe ofereceria condições de atirar sem riscos e
legitimaria a reação. Ela própria alvejaria o criminoso alegando legítima
defesa entre outras prerrogativas judiciais. Em seguida, a Perícia faria a parte
que lhe cabe e entregaria o “corpo” à PF. Mas mal Duarte toca o trinco, a porta
se abre, Elke nem teve tempo de terminar a palavra “polícia” e um cenário
surpreendente se revelou diante dos policiais: ao contrário de um homem em pé,
ou mesmo sentado, à espera de cumprir com o roteiro combinado, encontram um
homem deitado, imóvel, o rosto tombado na direção oposta à porta, calçando
apenas um dos pés de sapato, o outro seria encontrado no quarto, próximo à
cama, o paletó aberto, a mão esquerda ao lado do corpo, a palma para cima, os
dedos encolhidos.
O impasse se instaura à porta do 117. Haucke, no corredor
entre as equipes, assim que percebeu o olhar de seus agentes, sacou a pistola
que carrega da parte de trás da cintura e perguntou em tom baixo sobre o que
estava acontecendo. O Tático que se agrupava logo atrás fez menção de avançar,
mas Nestor, que os comandava, manteve-os nas posições.
Elke e Duarte entram, apontam a arma para o sujeito imóvel
na cama, o procedimento agora é real, Franco posta-se na porta fazendo o mesmo
e Haucke se aproxima também com a arma apontada para dentro quarto. Elke
escorre pela parede enquanto se posiciona Duarte aos pés da cama. O Tático faz
menção de avançar mas é contido, uma vez mais, ao sinal de Nestor. Duarte se
inclina e percebe que o rosto do homem, hematomas no olho e ferido nos lábios,
cabelos quase raspados, está sobre uma larga mancha de sangue absorvido pelo
lençol. Duarte toca com sua arma toca o pé descalço do homem, que não reage. E
repete ainda duas vezes. É nesse intervalo que Haucke entra no quarto, a
pistola na mão pronto para disparar se for preciso e sua expressão vai mudando
ao se aproximar do homem na cama. Nesse tempo, Duarte não tem mais dúvidas, “O
homem está morto”. Eles se olham, Haucke guarda sua pistola lentamente, olha
para o homem sobre a cama e pede para que chamem Balena, da perícia, Franco, da
porta, grita para que o Tático providencie a presença do perito-chefe conforme
a exigência do delegado.
A situação instaura um desconforto na equipe, os semblantes
entre surpresa e incerteza revelam desacertos que se seguem como a presença de
Mendes, um repórter da área criminal que fora “convocado” para cobrir a prisão
de um perigoso narcotraficante. Haucke praticamente o expulsa do local, mas ele
vira o suficiente para saber além do que estava combinado.